A Metamorfose dos Pássaros, 2020 - Catarina Vasconcelos
- MOZAICO
- 3 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Nome: Brenda Laiane Telles Miranda
RA: 12524152314
O filme português A Metamorfose dos Pássaros, da diretora Catarina Vasconcelos, é uma grande busca incessante pela memória, pelo processo que executa, através dos objetos afetivos, atalhos para réplicas emocionais, e o decurso do tempo é sentido nas imagens resgatadas, tornadas partes do presente por conta das encenações rigorosas à câmera.
“Aquilo que o ser humano não consegue compreender, ele inventa'', a frase disparada por um personagem resume o ponto de partida deste drama autobiográfico e a partir da própria dor, a
diretora Catarina Vasconcelos mergulha em uma série de perguntas sem respostas. A cineasta
busca na natureza –o que inclui os rios, as árvores, as montanhas e a bruma– a chave para representar não as pessoas com quem viveu, mas o sentimento nutrido por elas. O filme prefere investigar alternativas para ilustrar em imagens o amor e a dor, e o pássaro se torna o símbolo central deste estudo sobre a família e o luto, visto que as aves chegam não se sabe de onde, partem
quando menos se entende, reinventam-se pela troca de penas.
Há raros personagens em cena, pouquíssimos rostos, interação praticamente nula entre os
corpos, privilegia a representação pela ausência, buscando indícios da mãe falecida, do filho
que não pára mais em casa, e do pai marinheiro, sempre distante. No entanto, o pai, a mãe, a
filha e os irmãos falam cada um a seu turno, em fases distintas da vida e, em outros momentos,
conversam consigo mesmos, como num processo terapêutico ou confessional, às vezes, até sussurram impressões e segredos íntimos, de todo modo, recusam-se a explicar ações.
Em telas é visto dezenas de cenas compostas como pequenos quadros, uma espécie de naturezas mortas às quais o drama faz alusão, como a janela próxima do quadrado, a textura da película granulada e a fotografia de fortes contrastes favorecem o tom de pesar. O aspecto mais determinante da estética do filme se encontra na dissociação entre som e imagem, as narrações em off, onde nunca vemos as pessoas que falam, no instante em que falam, mas evocam estados de espírito, reflexões acerca da natureza ou da passagem do tempo. Enquanto isso, o espectador se depara com objetos espalhados pela casa, cenas da natureza, fragmentos de corpos: uma mão, um close muito próximo do olho. A reunião dos cinco irmãos após a morte da mãe se traduz na composição, seja de costas para a câmera, seja em uma posição onde a luz oculte seus rostos, vemos que há relações mais ou menos diretas, solicitando ao espectador uma postura ativa. Somos convidados a efetuar
ligações entre inúmeros fragmentos dispersos pela narrativa, assim como a projetar nossas experiências pessoais nas referências de amor e perda familiar.
A narração possui caráter fortemente literário, enquanto a sucessão de quadros busca a força da fotografia still. A casa, por exemplo, é filmada com a frontalidade de um palco teatral, algo reforçado pelo fato de os corpos não interagirem com este espaço, limitado a um pano de fundo, já a disposição dos personagens, emudecidos e posando para a câmera, dialoga com as performances, ainda que o filme transborde de afeto, o final se revela devastador e, do começo ao fim, somos confrontados com imagens fantasmas. O filme apela ao estímulo intelectual diante das imagens e do texto, em conjunção com a descrição puramente emotiva do amor familiar.
Talvez não se possa acusar o projeto de frieza, mas de uma obsessão pelo comando ao limite do neurótico, diante de tantos acontecimentos que fogem ao nosso alcance –a morte, em especial– a cineasta ergue um mundo compensatório, onde pode determinar cada gesto ou ação, produzindo uma linda e dolorosa via para o processo de luto.
Conceito:
O filme de Catarina Vasconcelos é uma obra que explora a concepção do cinema através do olhar, utilizando uma narrativa poética e motiva. A cineasta utiliza a imagem e a voz para transmitir sentimentos profundos, evocando memórias e experiências familiares de forma intensa, onde a ausência e a saudade são centrais, refletindo a luta emocional da família e a relação com o tempo. A narrativa é marcada com a força da realidade, criando uma experiência coletiva que o conecta o
espectador com a história.




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