top of page
Buscar

RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (2019) - Céline Sciamma

  • MOZAICO
  • 10 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Nome: Giovana Voigtlaender Wartha

RA: 12524122387


Céline Sciamma constrói em Retrato de uma Jovem em Chamas um cinema do olhar, um olhar que não captura, mas contempla, que não reivindica, mas reconhece. O filme recusa a gramática do desejo tradicional, tão marcada pela possessão, para criar um espaço em que a intimidade se dá no intervalo, na suspensão, no quase. É justamente isso que atravessa: a capacidade de Sciamma de traduzir o afeto em silêncio, luz e presença.


A relação entre Marianne (Noémie Merlant) e Héloïse (Adèle Haenel) nasce de um jogo de olhares que se transforma lentamente em reciprocidade. Na cena da praia, quando Marianne observa Héloïse sob o vento e a luz do entardecer, nada acontece, mas tudo se revela. O desejo pulsa na continuidade do olhar, não como conquista, mas como reconhecimento. É o momento em que Sciamma transforma o invisível em algo plenamente sensível. Essa ética do olhar, que renuncia ao domínio, é também uma ética política: o desejo entre mulheres aparece sem pedir permissão, sem se traduzir para caber nas expectativas do olhar masculino.


Se a praia apresenta o desejo pela contenção, a cena da fogueira o revela pela intensidade. Aqui, o canto coletivo das mulheres rompe, ainda que temporariamente, as normas que moldam seus corpos, exatamente como descreve Sara Ahmed ao falar de reorientação. As mulheres criam juntas um espaço onde a vigilância masculina cessa, onde a comunidade feminina instaura sua própria lógica afetiva. É nesse instante que Adrienne Rich nomearia como parte do continuum lésbico: uma rede de existência compartilhada que antecede e sustenta o desejo entre Marianne e Héloïse. O rosto iluminado pelas chamas não exibe Héloïse, o fogo a revela. A imagem arde antes do corpo, deslocando a lógica da objetificação.


Nesse processo, a direção de fotografia de Claire Mathon é determinante. Mathon trabalha a luz natural como forma de afeto: a chama da fogueira, o dourado da praia, a escuridão suave dos interiores. Nada é espetacularizado. A câmera observa sem invadir, criando imagens que respiram e que mantêm a materialidade dos corpos, não como superfície a ser consumida, mas como presença a ser acolhida. A fotografia, portanto, não é apenas estética, é política, pois desarticula o olhar tradicional que fragmenta e fetichiza mulheres.


Retrato de uma Jovem em Chamas dialoga diretamente com a construção estética do desejo e à politização do olhar. Sciamma demonstra que a forma, enquadramento, luz e ritmo não é apenas linguagem, mas pensamento. O filme produz um mundo possível onde o amor entre mulheres não precisa ser dissimulado ou punido, basta existir.


No final, quando Marianne observa Héloïse sozinha em uma sala de concerto, Sciamma retorna ao gesto inicial: o olhar como linguagem que basta. O choro de Héloïse ao ouvir Vivaldi não é dirigido ao passado, mas à sobrevivência dele. A imagem permanece porque o afeto permaneceu.


Assim, Sciamma cria um cinema que não apenas narra uma história de amor, mas reinscreve a experiência lésbica como presença sensível, política e historicamente negada. É um filme que nos ensina que o desejo pode ser chama sem ser espetáculo e que olhar, quando feito com cuidado, é sempre um ato de liberdade.

 
 
 

Comentários


© MOZAICO

  • Instagram
bottom of page