Praia do Futuro, Karim Aïnouz (2014)
- MOZAICO
- 11 de dez. de 2025
- 3 min de leitura
Nome: Isabela Mesquita Meneses
RA: 12524124369
Praia do Futuro se inicia com fim, a morte de um banhista estrangeiro durante o turno do salva-vidas Donato, é o pontapé para acompanharmos a jornada de luto, solidão e descobrimento do nosso protagonista. Enquanto encara esse novo sentimento de "falha", Donato se envolve com o alemão Konrad, amigo da vítima, ambos lidando de forma distinta com a situação e com a relação ali desenvolvida.
O filme é dividido em três atos que distinguem com intensidade os caminhos tomados pelo personagem vivido por Wagner Moura. Karim Aïnouz conta histórias a partir das imagens, antes de qualquer diálogo já estamos imersos nos acontecimentos das cenas, adentrando a atmosfera com total entrega à proposta. O contraste das cores vermelho e azul reforça a narrativa em seus pontos quentes e frios, se tratando não só da temperatura ambiente mas também da entrega sentimental das relações.
No primeiro ato conhecemos Donato como um herói, uma figura paterna para seu irmão mais novo, Ayrton, que o apelida de “Aquaman” por conta de sua profissão. A certeza de uma vivência feliz na cidade de Fortaleza é posta em questão quando nos adentramos na relação homoafetiva com o alemão, que acontece escondida da sociedade, colocando Donato como deslocado daquela realidade. A cena do treinamento dos salva-vidas em que todos correm para água e ele fica para trás, relutante e pensativo, reforça esse deslocamento.
No Brasil vemos cores quentes quase hiper saturadas e corpos nus postos em cena quase como objetos com as cabeças cortadas. As cenas de sexo entre o casal, mostram Donato como passivo, que se conectam com sua atmosfera de angústia naquele momento. Já na Alemanha, o background do segundo ato, temos um protagonista mais leve, ainda que não se sentindo totalmente pertencente àquele local, ele se comporta de maneira mais leve vivendo sua relação com Konrad sem as amarras da sociedade. Momentos antes do que seria sua volta para o Brasil, Donato executa o papel dominante durante o sexo, mostrando essa nova face de um personagem que se encontrou em um novo ambiente.
Essa conclusão é crucial para entender sua escolha de não voltar ao Brasil, a fotografia chega a incomodar por conta do contraste das praias fogosas nordestinas, no velho continente sempre vemos os personagens com muita roupa em ambientes totalmente urbanos. As cores frias predominam e a dinâmica social é de pouco contato físico.
O terceiro ato traz Ayrton de volta, agora mais velho e revoltado com o abandono do irmão que nunca mais voltou. Junto com ele Donato re-acessa o sentimento de luto, ao descobrir o falecimento de sua mãe, e o de culpa ao ser obrigado a ver no irmão o que deixou para trás, um passado ao qual ele não pertence mais mas que ainda vive. A colisão dos dois mundos incita ser um momento de resolução da história do nosso protagonista, mas se desenvolve com a criação de mais muros emocionais entre os irmãos.
Assistir Praia do Futuro depois de conhecer Karim através de A Vida Invisível e Motel Destino, é como ver os primeiros rascunhos de uma linguagem em desenvolvimento, é nítido captar o que se manteve como característica particular em seus filmes, o que não se manteve, e o que mutou ao longo dos anos. É inegável a sensibilidade visual e capacidade de se aprofundar em sentimentos não falados tanto dos personagens quanto dos ambientes. O cinema nordestino desenvolve sua própria linguagem poética e marginalizada ao longos dos anos, traçando uma trajetória firme e de crescente exponencial.




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