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A Última Floresta, 2021 - Luiz Bolognesi

  • MOZAICO
  • 2 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 3 de dez. de 2025

Nome - Tales Zelic de Abreu Lima

RA - 12524132457

O Portal da Floresta: Vivência e Existência Yanomami no Cinema

O filme ‘A Última Floresta’, 2021, dirigido por Luiz Bolognesi e com roteiro do mesmo em parceria com Davi Kopenawa, aborda a vivência e resistência do povo yanomami no norte do Brasil, fronteira com a Venezuela, no coração da floresta amazônica.


​Seu grande diferencial está no fato do filme ser produzido essencialmente por yanomamis, com Kopenawa assinando o roteiro. Dessa forma, o filme nunca deixa a duvidar da autoridade com a qual trata de assuntos sérios, como violência e omissão do estado ao mesmo tempo que explora a leveza da vida indígena, e a pureza de sua relação com a natureza. Assim, o filme brinca entre a linguagem ficcional e documental, alternando e misturando o ethos e o mythos yanomami com uma sensibilidade que só eles próprios poderiam mostrar.


O conflito, nesse caso, resistência do povoado perante a invasão do homem branco, sobretudo garimpeiros em busca de ouro é retratada não apenas como uma ameaça, mas como um fato consumado, que está no passado, presente e futuro dessas pessoas. Os invasores não são tratados como desconhecidos, muito pelo contrário, eles são bem conhecidos por todos, através do contato direto e das histórias contadas através de gerações, histórias essas que se incorporam em seus mitos. Mitos esses que ajudam a explicar e contextualizar seu mundo e seus ideais. Na história de amor entre Omama e Thuëyoma, temos a criação da vida e do povo yanomami, na forma de uma história única deste povo mas que é rapidamente e facilmente assimilada por qualquer um que a veja. Os mitos não servem apenas para educar crianças mas para manter esperanças e tradições vivas pela eternidade. A mulher pescada pelo homem e que dá origem a todo um povo simboliza a profunda ligação dos Yanomami com a natureza e a forma íntima como esse povo enxerga o que realmente importa: a simplicidade da vida acima dos bens materiais.


O povo yanomami não é retratado de forma alheia ou isolada às vontades e pressões externas dos homens brancos, mas estão completamente conscientes do que eles oferecem e das consequências disso. Eles recebem essa experiência e a relação com o mundo ocidental globalizado e atribuem a eles seus próprios significados a partir de suas vivências. Isso fica claro quando nos é apresentado uma explicação de base folclórica do por que não se deve buscar e extrair minérios dos rios, não é apenas pelo caráter científico ambiental mas está incorporado em suas próprias bases de crenças.


Muito mais do que a janela e a moldura de Elsaesser e Hagener, o filme desconstrói a percepção tradicional do tempo ao longo da obra e a câmera funciona como um portal, inserindo o espectador de forma ativa naquele mundo, não apenas para ver uma série de acontecimentos, mas para experienciar e sentir a vida daquele povo: seja na caçada, no preparo dos alimentos ou no ritual religioso. Não vemos acontecimentos intrinsecamente conectados que puxam um ao outro e que movem a trama. Ao invés disso somos apresentados a diversas situações que se conectam e fazem sentido sob um escopo temático amplo, que é a vivência yanomami como um todo. Não seguimos personagens específicos, mas toda a aldeia perante a ameaça de invasão.


Tecnicamente o filme se destaca em seus enquadramentos, muito bem planejados que valorizam a floresta e a interação dos personagens com o ambiente. Isso, como é de se esperar, acontece de forma orgânica, assim como a performance dos atores, uma vez que pode-se perceber a priorização para a naturalidade das ações dos personagens em todas as cenas, seja com homens, mulheres, crianças e idosos.


O filme é um retrato sensível da experiência yanomami, que em pleno século XXI, após séculos de colonização ainda lutam pelo direito de seu próprio modo de vida, perante a infinita expansão e absorção do capitalismo predatório que incessantemente explora e destrói cada metro quadrado de natureza que encontra. Ao contrastar a serenidade dos yanomami com a rapidez e ansiedade do modo de vida ocidental, ‘A Última Floresta’ denuncia um sistema que coloca o lucro acima de tudo na lista de prioridades, acima até mesmo da própria vida, como relembra ao final do filme a invasão de 40 mil garimpeiros ao território yanomami nos anos 80, o que resultou em milhares de mortes indígenas. Assim, mais do que um filme, o longa é uma denúncia, uma obra de arte e um lembrete que nos convida a experienciar, sentir e nos conscientizar a respeito de uma dentre milhares de experiências indígenas que ainda resistem frente à omissão do estado brasileiro, das quais a ação real para sua preservação é de extrema urgência e importância, sobretudo em um momento climático crítico como agora e como já vem sendo desde o lançamento do filme em 2021.

 
 
 

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