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Cousins, 2021 - Ainsley Gardiner e Briar Grace-Smith

  • MOZAICO
  • 2 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 3 de dez. de 2025

Nome: Felipe Prado Rosell

RA: 12525210107


Cousins – Identidade e Pertencimento Cultural


“Eu entendo o inglês, mas eu não sinto o inglês. Por exemplo, quando eu falo ‘mango tree’ em inglês, é só uma árvore. Em português, ‘mangueira’ me lembra da minha mãe, do cheiro...”


Este trecho da resposta do cineasta brasileiro Fernando Meirelles, em entrevista ao The Hollywood Reporter, ao ser perguntado sobre trabalhar em Hollywood e dirigir seus filmes em inglês, e não em português, encapsula perfeitamente o tema principal do drama neozelandês Cousins: a importância da conexão do indivíduo com suas raízes culturais e a sensação de pertencimento proporcionada pelo acolhimento familiar.


Separada de sua família enquanto ainda criança, Mata Pairama (Tanea Heke, Ana Scotney e Te Raukura Gray) cresce em um mundo pākehā (palavra Maori para designar um neozelandês de ascendência europeia) e vai perdendo todo o contato com sua cultura e com sua família Maori, despindo-se de sua identidade. Ao longo dos anos, Mata procura retornar ao lugar de onde nunca desejou sair e reencontrar sua individualidade.


À procura de Mata também estão suas primas Missy (Rachel House, Hariata Moriarty e Keyahne Patrick Williams) e Makareta (Briar Grace Smith, Tioreore Ngatai-Melbourne e Mihi Te Rauhi Daniels), que, após o breve porém significativo período que passaram juntas na infância, decidem cumprir a promessa de encontrar sua prima e trazê-la de volta para casa.


O que considero um dos fatores mais centrais e fascinantes desta obra das diretoras Briar Grace Smith e Ainsley Gardiner — ambas de descendência maori, por sinal — é o espelhamento entre Mata e sua herança cultural. Um exemplo belíssimo disso está presente na sequência em que Mata e sua avó Kui (Ngawhakawairangi Hohepa) realizam o hongi, um cumprimento tradicional maori em que duas pessoas encostam o nariz e a testa uma na outra, simbolizando a conexão entre suas almas e a coexistência de suas vidas. Logo antes do cumprimento, a câmera faz um close-up nos rostos das duas. Mata está com a respiração ofegante, ligeiramente assustada por não compreender direito o que está acontecendo. Kui está calma, com o olhar fixo nos olhos de sua neta. A partir do momento que se encostam, Mata vai gradualmente se tranquilizando e sincronizando sua respiração com a de sua avó. A ação termina com ambas serenamente se olhando. Sublime. Aqui se estabelece que Mata se reconhece como indivíduo através do suas raízes culturais familiares. Essa ideia é constantemente reforçada em outros momentos do filme e por meio de outros elementos fílmicos também. Não é mera coincidência que a cor da casa da família de Mata é a mesma cor atribuída à maioria do seu figurino: verde.


Quando afastada de suas origens, Mata é sinônimo de vazio. Não há querer, desejo, vontade. Tudo isso é sufocado até o limite. Ela acredita que viver de tal maneira é ser uma engrenagem em um mecanismo, é ser forçada a encaixar-se em um molde que não lhe cabe. Um ser humano extraído de sua essência - um ideal bem compatível com o contexto eurocêntrico capitalista que a acompanhou durante seu desenvolvimento como pessoa. Ao desconhecer sua própria história Mata não teve a oportunidade de explorar sua individualidade.


Do ponto de vista narrativo, o filme se demonstra extremamente competente. A narrativa é guiada não somente por Mata mas também por Missy e Makareta através de uma estrutura não linear, com flashbacks frequentes. O que poderia resultar em uma montagem caótica, arrítmica, que quebraria o fluxo do filme, na verdade potencializa a resolução emocionante dos arcos das personagens através de revelações e acontecimentos precisamente encaixados no roteiro.


A câmera acompanha a perspectiva das três personagens em relação ao mundo que habitam. Quando mais jovens, os planos ficam mais próximos do chão, e há maior utilização de contra-plongées, uma boa utilização dos recursos cinematográficos para uma maior imersão e conexão com as personagens.


Estruturalmente falando, é um filme que muito se assemelha a um drama hollywoodiano e poderia facilmente cair na armadilha de se tornar um melodrama meia boca. Mas graças ao já mencionado roteiro bem trabalhado e uma direção extremamente sensível, o filme consegue fugir disso tranquilamente.


Por fim, acredito que a ideia fundamental de Cousins pode ser sintetizada na seguinte reflexão: a resposta para a pergunta ‘Quem é você?’ está intrinsecamente interligada a ‘De onde você é?’.

 
 
 

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