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O Som Ao Redor, 2012 - Kleber Mendonça Filho

  • MOZAICO
  • 2 de dez. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 3 de dez. de 2025

Nome - João Victor Vidal Fleck

RA - 12523215226


O filme O Som Ao Redor (2012), de Kleber Mendonça Filho, constrói um relato complexo do cotidiano urbano recifense, no qual o som ocupa o protagonismo e guia a perspectiva do espectador. Observado a partir do cognitivismo nos estudos cinematográficos - abordagem trabalhada por David Bordwell - o filme evidencia como a recepção depende de processos mentais ativos, tais como percepção, inferência, expectativa e avaliação. Diferentemente de teorias que enfatizam identificações emocionais ou leituras simbólicas automáticas, o cognitivismo entende o espectador como um agente racional que organiza pistas audiovisuais para construir significado futuro. Nesse sentido, O Som Ao Redor oferece um terreno fértil para analisar como estímulos sonoros e visuais são mobilizados para engajar a atenção e direcionar interpretações sobre a dinâmica social do ambiente retratado.


O uso do som no filme constitui o principal motor cognitivo da experiência. Ruídos cotidianos como portões que se abrem e fecham, latidos, fogos, eletrodomésticos, conversas entre vizinhos, obras são elevados à condição de elementos centrais, muitas vezes dominam a trilha sonora e exigem que o espectador se atente precisamente às camadas auditivas e procure identificar a origem dos sons. Esse processo de “investigação auditiva'', termo coerente com a abordagem cognitivista, leva o público a reconstruir mentalmente o espaço do bairro, em que percebe-se tensões, mesmo quando a imagem

mostra apenas a rotina aparentemente banal da classe média de recife. Os sons funcionam como pistas narrativas: o barulho insistente de fogos sugere conflito, os ruídos de vigilância indicam controle policial ou privado, e sons em situações cotidianas reorganizam a atenção, conduzindo o espectador a antecipar ameaças que nem sempre se concretizam. O filme, portanto, ativa expectativas de maneira estratégica, apostando em suspense cognitivo mais do que em suspense narrativo comum. Além disso, instiga a ressignificação de sons emitidos por objetos e, principalmente, eletrodomésticos - que estes são representados como a grande mobília da casa, o uso da máquina de lavar roupas e aspirador de pó para alívios e desejos pessoais de personagens que não encontram outra forma de se satisfazerem em suas realidades - e outras maneiras de entender a relação objeto e som.


Essa constante ativação de expectativas é reforçada pela estrutura e escolha de montagem narrativa de Kleber. O espectador, habituado a certos modelos dramáticos, projeta possíveis desfechos violentos ou confrontos diretos, mas o filme mantém-se à beira do clímax, como se viesse a qualquer momento, mas sem tê-lo de fato. Tal construção produz um estado de tensão contínua que não depende de acontecimentos grandiosos, mas da percepção de que o espaço filmado é marcado por conflitos históricos, e eles por si só carregam a narrativa e o retrato a ser colocado em discussão com a obra: o cotidiano carente e sistêmico da classe média herdada do passado colonial. A ausência deliberada de resolução reforça a ideia de que o perigo não está em um evento específico, mas na própria organização social do ambiente. Assim, o desconforto que emerge não é apenas emocional,

mas resultado de uma avaliação cognitiva do espectador diante dos indícios acumulados ao longo da narrativa.


A espacialidade também desempenha papel crucial nessa dinâmica. Ao filmar o bairro como um mosaico de muros altos, condomínios, casas antigas e ruínas, Mendonça Filho constrói um mapa cognitivo que exige do espectador a reconstrução de relações invisíveis: quem vigia quem, quem detém poder, quem pertence a cada território. São realidades presentes nacionalmente que não são vistas, porque são mascaradas com a própria vivência. Quem vive não vê. Mas ao assistir uma obra como esta, se reconhece. Por isso, é uma escolha simples e sútil, e a torna brilhante e inovadora. Muitas vezes o som indica a presença de elementos não mostrados, forçando o público a completar lacunas e interpretar as estruturas sociais que conectam personagens aparentemente distantes. Ou então, o longa capta apenas o silêncio que, muitas vezes, é um barulho ensurdecedor para a obra. O filme,assim, solicita uma participação ativa, na qual a compreensão emerge da síntese entre percepção sensorial e inferência racional, e, às vezes, pessoal.


Desse modo, O Som Ao Redor opera como um exemplo notável de cinema que mobiliza mecanismos cognitivos para produzir crítica social. A inquietação do público não deriva apenas de empatia direta com personagens, mas da percepção das contradições, tensões e desigualdades que se revelam por meio dos detalhes sonoros e visuais. Kleber Mendonça Filho constrói uma obra que exige atenção, interpretação e raciocínio, fazendo com que o espectador participe ativamente da construção de sentido. A crítica que o filme propõe sobre violência estrutural, vigilância constante e desigualdade urbana emerge justamente do modo como esses elementos são percebidos e processados cognitivamente. Assim, a obra demonstra como o cinema pode, através de sutilezas formais, convocar o espectador a compreender o que está “ao redor” e, muitas vezes, permanece invisível.

 
 
 

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