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Retrato de uma Jovem em Chamas - Céline Sciamma, 2019

  • MOZAICO
  • 2 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Nome: Julia Baccan

RA: 12522178984 Retrato de uma Jovem em Chamas se constrói como um encontro entre duas mulheres que, ao serem isoladas numa ilha bretã, passam a experimentar o tempo, o olhar e o desejo de maneira quase subterrânea. A narrativa não avança por acontecimentos grandiosos, mas pela lenta transformação que se inscreve nos corpos, nos gestos e nas hesitações. O filme pede que o espectador acompanhe esse movimento íntimo, que respire junto das personagens, que perceba o que muda no brilho dos olhos e no ritmo da respiração. Assim, a história não se limita ao que acontece entre Marianne e Héloïse; ela reside no modo como elas se veem, se reconhecem e aprendem a existir uma diante da outra.


Essa sensibilidade é sustentada pela estética do rosto, um dos pilares da construção formal da obra. Béla Balázs descreve o close-up como o espaço onde o rosto deixa de pertencer ao mundo físico e passa a revelar aquilo que poderia ser chamado de microfisionomia da alma. Em Retrato de uma Jovem em Chamas essa ideia encontra expressão plena. O rosto de Héloïse não é capturado como objeto de curiosidade, mas como território vivo, onde cada detalhe interno se manifesta. A câmera de Sciamma repousa, espera, observa. Nada é apressado. O olhar de Marianne sobre Héloïse, e o de Héloïse sobre Marianne, revela uma troca que cresce sem palavras, como se a respiração e o silêncio bastassem para dizer o que ainda não pode ser dito.


Gilles Deleuze aprofunda essa dimensão ao definir o rosto como imagem-afeição, um ponto onde o tempo parece suspenso e onde a expressão passa a valer mais do que qualquer gesto concreto. É exatamente nessa suspensão que o desejo nasce no filme. O rosto de Héloïse deixa de ser apenas material para a pintura e se transforma em superfície que reflete o desejo de Marianne. Esse espelhamento devolve às duas personagens uma consciência inesperada: a de que olhar também é ser olhada, e que o olhar devolvido é, muitas vezes, mais revelador do que o olhar oferecido.


Para que essa troca possa acontecer, Sciamma constrói uma arquitetura visual marcada pela tensão entre janela e moldura. Os interiores da casa funcionam como molduras vivas, alinhadas ao pensamento de Arnheim e Eisenstein, que veem na composição rígida e no controle formal um modo de construir sentido. Cada porta funciona como quadro dentro do quadro, cada sombra parece ser pensada para reter o olhar, cada gesto é distribuído de maneira milimétrica no espaço. Nos exteriores, porém, o mar, o vento e o horizonte invadem o quadro como janelas bazinianas. Esse contraste é fundamental para a maneira como sentimos o espaço. Dentro da casa há contenção, limite, destino. Fora dela há respiro, possibilidade e promessa de liberdade.


A moldura do retrato que Marianne deve entregar funciona como símbolo desse limite. É o contorno rígido que tenta aprisionar Héloïse, mas é também o ponto a partir do qual Marianne tenta preservar aquilo que sabe ser impossível de manter. Pintar, aqui, não é representação; é gesto de resistência. E, ao mesmo tempo, é promessa de permanência. Assim como a memória, a pintura tenta fazer permanecer aquilo que inevitavelmente se perderá.


A estrutura temporal da narrativa reforça essa dimensão de perda e permanência. Toda a história é reativada a partir do momento em que Marianne reencontra o quadro e, com ele, a lembrança da mulher que amou. O passado surge filtrado pelo afeto, como aquilo que arde, mas não se dissipa por completo. Certas imagens voltam com força assombrada: o vestido em chamas, o sorriso no barco, o número escondido no livro. Esses retornos mostram que a memória não é um arquivo, mas um organismo que respira e se reorganiza. O mito de Orfeu, citado pelas personagens, aprofunda essa reflexão. A escolha de Orfeu por olhar Eurídice, mesmo sabendo que a perderia, ecoa a escolha das protagonistas: viver a intensidade do amor com plena consciência da sua finitude, preferindo a memória viva à possessão impossível.


Para além da construção formal, Sciamma ancora o impacto emocional do filme em mecanismos retóricos que atravessam a tradição analítica. O ethos se manifesta na postura sensível e ética das personagens, especialmente de Marianne, cuja relação com Héloïse é construída no respeito e na atenção sincera. O pathos se expressa na delicadeza dos silêncios, na respiração que se sincroniza, nos instantes onde o desejo se insinua sem ser declarado. O logos aparece na estrutura visual rigorosa, nos enquadramentos que argumentam pela reciprocidade do olhar, nas molduras e janelas que produzem sentido e revelam o que está em jogo.


No conjunto, Retrato de uma Jovem em Chamas é uma obra que articula rigor e afeto de uma maneira rara. A câmera não captura intenções; ela acolhe sensações. Os rostos não são superfícies a serem decifradas; são espaços onde o mundo interior ganha forma. A moldura não aprisiona; desafia. A memória não consola; transforma. E o olhar, que atravessa toda a narrativa, não é instrumento de poder, mas gesto de criação compartilhada.


Ao humanizar o olhar e permitir que o desejo se construa pela reciprocidade, Sciamma revela algo profundamente verdadeiro: só existe amor quando se olha de volta. E, mesmo quando o tempo separa aquilo que foi vivido, algo permanece aceso, como a chama que insiste em iluminar o que já não pode ser tocado.

 
 
 

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