A História Sem Fim, Wolfgang Petersen
- MOZAICO
- 1 de dez. de 2025
- 8 min de leitura
Atualizado: 3 de dez. de 2025
Nome: Nathalia Vendrame
Uma crítica rica de pobreza - De experiência e memória
“Mas o papel da memória e da imaginação na arte do cinema pode ser ainda mais rico e significativo. A tela pode refletir não apenas o produto das nossas lembranças ou da nossa imaginação, mas a própria mente dos personagens.”
XAVIER, Ismail (org.). A experiência do cinema: antologia. 1. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1983. p. 38.
Minha história com a obra que vos escrevo, começa quando tinha cerca de 10 anos e secretamente assinei, se não me engano o TeleCine na televisão, pois sabia a senha no controle remoto… Caí no filme apenas por ter achado a capa interessante, era final de ano, férias, tinha sido um dia ruim, tinha brigado com minha prima e, minha mãe não havia deixado eu dormir na casa da minha avó (meu local favorito). Na esperança de me alegrar, adentrei uma obra sobre depressão, mas que acima de tudo, é sobre esperança.
A História sem Fim é um filme alemão dirigido por Wolfgang Petersen, baseado no livro de mesmo título de Michael Ende, que conta duas histórias, com a possibilidade de se enxergar uma terceira, em apenas uma só; A princípio, temos Bastian, que está de luto, sem rumo por ter perdido sua mãe, quase sem amigos na escola por já sofrer com bullying constante e, dentro de sua casa, ve pontualmente o pai, o qual visualmente - e também em diálogos - percebemos que não era sua base de amparo de costume; Nesse contexto o menino entra na leitura da “História sem fim'', um livro sobre o reino de Fantasia que precisa ser salvo do avassalador “nada”; Mas tangivelmente a uma criança (a que assiste e a que protagoniza), o que é o nada? Em um diálogo, o personagem “Come Pedra” tenta esclarecer que o nada é a ausência de tudo, não é o escuro, um buraco negro que puxa para alguma direção, pois esse ainda seria algo, o nada é apenas o nada e, com esta descrição inicial, já entendemos que este perigo consumir Fantasia, então nada nela restará.
Com esta premissa, me proponho a nos introduzir as alegorias e simbolismos que carregam este filme, estas que atravessam e fortalecem uma magia infantil que, quando levada a sério, constrói sua profundidade de maneira visual e narrativa através daquilo que o cinema tem a capacidade de melhor retratar: as emoções. Em “Fantasia”, a guardiã Imperatriz menina (personagem inicialmente sem nome), nomeia um menino indígena chamado Atreyu para salvar o reino do mal que o toma, em uma convencional linha narrativa em que a terra do protagonista e do clero precisa ser salva, o menos pensável herói nomeado seria um indígena - ao contrário, quiçá fossem até mesmo as terras dele que seriam tomadas - Portanto aqui, a presença desse menino seria um estranho adereço se o fosse, mas não o é, a etnia de Atreyu não é um adorno para ser “diferente”, a lógica de sua existência é a essência do personagem, o menino é construído para ser um herói, mas não através da ideia de tomada de algum lugar, da conquista como meio e fim para o triunfo; O garoto busca salvar toda comunidade que naquele reino vivia, não importa se dragão, elfo,“come pedras”, gnomo,.. Nos olhos dele não há distinção de quem habita sua comunidade, não há uma invasão de “descobrimento” à outra terra, há a busca do pertencimento em um local onde possa ser de todos, não atribuído pontualmente ao herói.
Prosseguindo a um dos momentos mais marcantes da obra, que é, quando Artax, o cavalo de Atreyu morre afundando no “pantano da tristeza” que funciona em uma lógica depressiva, onde quanto mais triste você está, mais afunda, (entretanto numa situação em que você já está mal, a tentativa de tornar-se feliz, torna-se um desespero que é percebido por aquela areia movediça que te puxa), cria-se um espelho entre três histórias; A própria, onde vemos que em Fantasia, todo ser tem a plena capacidade de sofrer como um ser humano, a de Bastian, onde o menino revive a perda da mãe e também se emociona com o que vê no livro, e o espectador, que geralmente também se emociona (ou fica apenas bastante tocado) ao ver o animal morrendo e os meninos chorando; A identificação e o poder emotivo potencializa-se imageticamente em três áreas: o observador criança em contato direto com a morte, visualizando de forma explícita o fim do cavalo, vendo inclusive sua expressão facial, seus olhos arregalados e tentativa de fuga da situação, o desespero de Atreyu tentando sem sucesso salvá-lo, e Bastian, que nos pontua ainda mais claro a identificação da perda, (para nós que a vemos, ou a mémoria ou o medo da inevitável) compreendida como um fim que se situa ainda nem na metade do filme, pois após esta, a luta contra o fim de si mesmo, contra “o nada”, o niilismo, apenas se inicia.
Após o pantâno em mais um de seus destinos do interior do reino, Atreyu encontra duas esfinges, as quais ele precisa mostrar que acredita em si mesmo para atravessá-las e, aí sim, receber as seguintes duas missões que salvarão Fantasia: Encontrar alguém de outro mundo para nomear a imperatriz menina e descobrir quem ele é. Hoje, revendo a obra, essa é a sequência que mais me emociono, pois entender a dimensão do que é acreditar em si mesmo, ver o filme colocando esta como uma prova de força é tão profundo, ver a imagens dos samurais que tentaram atravessar as esfinges, mas não conseguiram… Mas acima de tudo, a alternância para o mundo de Bastian, que quando lê que a Imperatriz menina precisa ser nomeada, ele reage dizendo “minha mãe tinha um nome tão bonito”, nos relembrando mais uma vez do peso da perda, do poder da afetividade na memória de uma criança que mesmo completamente imersa por horas sem dispersões em um livro, ainda trás sua identidade, um pouquinho de si, para o que fantasia com. Alternando de volta à jornada de Atreyu a descobrir quem é ele próprio, o menino chega à frente de um espelho e, quando se olha, vê Bastian, que por sua vez também se imagina como Atreyu, que por nossa vez, de espectadores, nos vemos em ambos, somos os ativos que a obra exige em possuir para justificar a existência das Fantasias de poder, do poder imaginativo sugestivo da obra daqueles que mais nobremente emergem, acreditam e vivem ela: as crianças.
Para o segundo desafio, o nome da imperatriz menina precisa ser dado, e agora tomando quase inteiramente a tela, o rosto da guardiã centraliza a emoção e clama olhando diretamente a câmera: “diga meu nome Bastian''. O menino incrédulo em ouvir seu nome na história finalmente aceita que faz parte dela e, nós não ouvimos o nosso, mas cruzamos com o olhar da personagem, abrindo espaço para então também fantasiamos esse pertencimento da emoção, do afeto e memória que habita o cinema. Após aceitar seu pertencimento à história, Bastian é convidado a reconstruir o ponto de esperança que agora resumia o reino de Fantasia, a partir de grãos de areia, o menino recria o mundo, através de muito afeto e memória sob o voo do dragão Falkor que, ao fim pergunta se agora ele mesmo tem mais algum desejo, Bastian leva o dragão à Nova Iorque para sobrevoar apavorando seus antigos bullies, com um sorriso estampado de orelha a orelha e braços abertos Bastian vive e nos convida a também integrar o mundo de Fantasia.
Nunca achei que seria capaz de escrever sobre os simbolismos ou o poder de “A História sem Fim”, sempre me achei completamente incompetente em julgar algo que tanto amo, que tanto tenho histórias com, algo tão profundo que deixa de ser uma obra, um artigo, elemento tangível isolado, mas que passa a ser um integrante por completo de quem sou hoje, um filme que me fez responder junto a Bastian em tela quando o via, correr na sala de casa pulando de sofá em sofá fingindo que era o dragão em que estava voando, algo que me fez decorar a grudenta música tema do filme e canta-la imitando cenas do trailer (e como foi dificil conseguir o DVD original deste, ainda um que tivesse trailer? Infernizei minha mãe para achá-lo). Mas no fim, se o afeto e a experiência me tornam incapazes de pensar a obra, não seríamos todos então reféns incapazes de julgar toda arte que amamos?
Hoje vejo que não encontro problemas de falar sobre “A História sem fim”, pelo contrário, tive problemas em resumir, (e deixar de fora) algumas temáticas nos excertos acima, pois as julgo como tão complexas, que seria capaz de dedicar um capítulo inteiro apenas a sua narrativa (isso sem levar em conta o livro, o qual também é uma obra deslumbrante). A pobreza dessa crítica e o meu medo de escrevê-la, talvez esteja no preciosismo da experiência de uma criança, no meu ceder, na redenção por completo como espectadora nas mãos do autor, por acreditar através da construção visual de significações racionais, na fantasia, na emoção; Hoje sei defendê-la como essencial, como um complemento a razão, e não sua oposição.
A experiência e seus afetos não são impasses da linguagem e da ação, mas são movimentos que nos possuem para serem manifestados. Não temos o controle consciente sobre o que vamos sentir com o filme, quais memórias ele nos remeterá, ou qual será capaz de criar, mas podemos ter a perceptividade do mal uso das emoções: Amo este filme pela experiência a qual ele me proporcionou junto a potencialização de seu poder imagético em meu imaginário que construiu também agora uma forma cristalizada que transcende ao seu material (mas baseia-se nele)? Ou amo este pois lembro da experiência externa dele e o poder da nostalgia que me causa? Em um período que tanto sentencia a nostalgia a um terror iminente, ressalto que compartilho da lógica de alertar do perigo de nela recair como um fim preciosista, mas entendo como um ser humano, a origem do sentimento. Cabe agora então, apesar da compreensão, pensar aprofundando no que temos que entender como a boa leitura destas emoções que nos surgem ao ver um filme, não para validar a memória que temos sobre ele, está existe, para alívio de todos é imutável pois agora reside na ideia do que ela foi, mesmo que factualmente não tenha sido; Mas então para pensar no todo da obra vista, e isso sim envolve a experiência dela, da forma da análise do pensar que tratamos, através da necessária reeducação constante do olhar - assuntos os quais inclusive rendem extensos textos que resultam em ainda mais dinâmicas discussões.
Por fim, acho que esse é o texto mais esperançoso que já escrevi, e seguindo nesta linha: Como é lindo a afetividade, a conexão, a expansão de uma história dentro de nós. Que sigamos tendo orgulho de fantasiar, de sermos emotivos e ter a nobre e plena capacidade de render-se a uma narrativa (esta específica como mérito da direção em também conseguir construir esse tipo de direcionamento do olhar), de enxergar na história de Fantasia um processo da jornada da sobrevivência da alma após o luto, de poder através da educação do olhar, alimentar não uma nostalgia de criança em revisitas ao filme, mas a construção de uma criança, um jovem, um adulto que a cada vez que se depara com a obra, adentra mais uma significância a esta, enxerga e aproveita sempre mais do material a disposição de si. Feliz é o cinéfilo que entende que ver é perder, mas que também precisa ser a construção do pensar em novos caminhos.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Que emoção! Que emoção? Tradução de Cecília Ciscato. São Paulo: Editora 34, 2016




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